Eu, Navegador

março 19, 2010

Eu rindo te peço perdão, por tudo que deveria e não sou. Eu choro e te peço sorriso. A felicidade é só um porto para se reabastecer e voltar ao mar. As ondas te derrubarem por completo. Precisas sempre ao porto retornar.

A ventura nesse teu cabelo bagunçado! Me deixa embalar num sono, sobre nuvens de inverno. Aviões que não param de sobrevoar o cérebro. Lá longe existe um ar nunca respirado. Me deixa ir às estrelas e voltar com o brilho.

Só te tocando alcanço a luz. E só quero no teu porto quente minha felicidade.

Teu espírito me faz sorrir. Nem com a pior tempestade, e totalmente destroçado do mar, tempo, do campo, e de todas as batalhas dessa vida.

No teu porto me encontro, com minha própria essência contida, nesse teu sorriso de criança.

março 14, 2010

um passarinho pousou na minha mão.
não só porque lá tinha grãos.

um passarinho pousou na minha mão porque
meu pelo tinha a mesma cor das suas plumagens.

Death by water

março 2, 2010

Phlebas the Phoenician, a fortnight dead,

Forgot the cry of gulls, and the deep sea swell

And the profit and loss.

A current under sea

Picked his bones in whispers. As he rose and fell

He passed the stages of his age and youth

Entering the whirlpool.

Gentile or jew,

O you who turn the wheel and look to windward,

consider Phlebas, who was once as handsome and tall as

you.

T. S. Eliot

Sujeira

fevereiro 16, 2010

Agora somos. E somos isso:

Esse nada

Esse lixo

Essa podridão toda

Que me come inteira

Frente essa multidão sem rosto:

Todos os mesmos

Parecem todos a mesma pessoa

Sem face

Alguma palavra bonita que leio

E vejo ninguém ali

Imagino só um autor

Que talvez teve uma paz

Que não tive

Que talvez teve uma humanidade que não tive

Que talvez viajou para algum lugar que não viajei

Talvez só na mente

E somos isso que vemos:

Essa carne crua

Esse sorriso torto

Esse corpo usado

Essa voz que já não grita

Nós deixamos de ser

URGÊNCIAS

fevereiro 1, 2010

As pessoas precisam de pessoas insensíveis.

Tão insensíveis quanto elas podem ser.

Tão desprovidas de sentimento,

Capazes de amarem tão somente sua imagem no outro.

Coisa que dilacera a alma,

Essa falta de sentido.

Falta de amor inteiramente no outro.

Pessoas duras que entendem,

Mas só entendem as palavras, os seus significados,

E nada mais.

Não entendem com o coração e, na ausência de palavras,

Seriam seres totalmente estranhos a si mesmos.

Existe uma busca enfim,

Por alguém a quem eu não necessite de bajulações, e explicações, correções.

Alguém cujo sorriso seja simplesmente sincero e coração aberto.

Talvez só exista você.

Um fim igual ao início

dezembro 25, 2009

     Tudo aquilo era fascinante. Aquele modo peculiar de gesticular. Aquele sorriso encantador. Aquela maneira única com que falava. Tudo por muito tempo foi assim…

      Até perceber que ele gesticulava de uma maneira tosca. Que aquele sorriso era mais comum que o da Monalisa. E que ele falava como o Silvio santos no microfone. Tudo enferrujou. Não era mais tão brilhante como quando acabara de sair da loja.

     Talvez tenha sido porque ela se acostumou com ele resmungando e fazendo tudo aquilo, então perdeu a graça. Mas talvez seja também porque ela o via de uma forma única, e isso, não sabemos porque razão acabou se perdendo no tempo.

 ‘Bem, as pessoas se enganam’

     Ela sempre pensava isso pra se consolar.

 ‘Ele era mais interessante antes, ele está diferente.’

      Ela sempre tinha esses pensamentos… Ela sabia que, não era exatamente aquilo. Ela sabia que ele era interessante, e que ela não havia se enganado, e que ela não ficou bêbada por todo aquele tempo. A realidade é que ela não queria ver, que ela estava o vendo diferente. Ela preferia pensar que ele sempre foi assim.

      Ele andava cabisbaixo. Andava choroso pelos cantos. Ela não prestava atenção. Ele a olhava por breves momentos, quando ela não estava olhando.

  ‘ Ela é tão simpática com todos.’

      Ele sempre pensava isso para manter-se feliz de alguma forma.

 ‘ Ela é tão bonita e doce.’

 E ele sempre pensava, em como as coisas haviam mudado de repente. Ele não entendia o porque. Só sabia que algo estava diferente. Talvez ela já não fosse a ‘miss’ que ele conheceu. Ou ele que se acostumou. Mas ele continuava a achando linda. Até mais linda do que antes. Começou a perceber a feiúra das misses, começou a ver que ela era até mais bela agora. Começou a ver que ela andava sendo grosseira demais, e que aquela simpatia inicial foi se esvaindo.

 ‘É só uma fase’

 Ele pensou isso inúmeras vezes. Poderia ser uma fase. Poderia. Ela o achava desanimado demais. Ele já não era o rapaz sorridente e espontâneo de antes. Ele anda tão mudado, isso ela reparou. Um dia ela estava passando pela rua. Avistou um lindo rapaz. Fascinante. Ele tinha um modo peculiar de gesticular e um sorriso encantador.

‘Não adianta… Eu não te amo mais.’

A única coisa que ela conseguia sentir por ele era pena agora.

 ‘Mas… Eu te amo tanto… O que ele tem? Tu nem conhece ele.’

     Ela refletiu por um momento. Pensou no sorriso, no modo de falar, no modo dele gesticular. Lembrou então, que quando conheceu o doce rapaz que estava agora chorando em sua frente. Lembrou-se que sentiu a mesma coisa, e que reparou nas mesmas coisas. De repente, ela sentiu-se vazia de sentimentos. Incapaz de falar, ou expressar algo em sua face. O abraçou, o beijou. Olhou para seus olhos transbordando de lagrimas.

 ‘Seja feliz… Passe bem.’

     Ela saiu pela porta. Ele ficou durante algumas horas sentado no sofá. Olhando todos aqueles objetos acumulados durante os anos, juntos. Ele saiu para dar uma volta. Ela nunca mais voltou, nem falou com ele. Ele se mudou algum tempo depois. Tudo acabou. Até esse texto. E foi isso o que sobrou…

Uma Abelha

dezembro 18, 2009

suponho que como qualquer garoto
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.

uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha-da-puta!”

e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.

estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.

meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.

imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho…

enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.

mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.

Buk

dezembro 7, 2009

To com saudade de ler um bom poema. Um que toque bem no fundo e eu corra pela sala de novo. Não entro em mim, de alegria, por um bom poema.

Eu recordo

agosto 14, 2009

Uma alma feroz que viajou no tempo.
Os campos sorriam ao vê-la.
Quando caminhava entre mortos,
a vida chamava-a de volta.
Não deixe morrer o templo desta alma.
Aclamavam todos os deuses,
que não a deixassem triste.
Seu coração ferido era jovem.
Era pecado não a ouvir. Sua voz era mandamento.
Tolos não a tocavam,
e ela aos tolos lembrava, que as estações mudavam

mas os mortais não a viam assim
apenas o superficial enxergavam
eram cruéis e as palavras não os tocavam
uma alma ventania
perto de almas vazias

os deuses furiosos assistiam
a sua princesa ser despedaçada
por almas tão pequenas
que não tocavam o imortal

os seres místicos choravam
pois aos poucos matavam a alma feroz e ferida
de uma semi-deusa cativa da solidão
eu recordo, pois hoje só na memória vive
as flores choraram
os ventos sopraram
e ela não voltou
em seu pulcro ainda olhou nos olhos dos matadores
mas não viu nada além de olhos
carne, cílios

O fogo queima.

julho 19, 2009

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