Algo sobre algo
Novembro 2, 2008
“Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.
Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder ‘passar desta para melhor’. Os empresários do serviço funerário se vêem ‘brutalmente desprovidos da sua matéria-prima’. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque ’sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja’. Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a Morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?
Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta ‘ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte’. É o que basta para o autor, misturando o bom humor e a amargura, tratar da vida e da condição humana.”
[José Saramago]
E a pior conseqüência, acredito, ainda seria o torpor atingido pelas pessoas, que cresceria gradativamente. Aquela velha história de que as pessoas agem agora porque têm medo de não ter oportunidade depois, e tal. (Idéia esta com a qual tu também está familiarizada e pensa bastante a respeito, pelo que vejo; mas, de qualquer forma, senti vontade de comentar aqui.) (Talvez eu também esteja com medo da morte.)
Tem um fragmento de Heráclito que me acompanha desde o início da minha aventura na filosofia: “viver de morte, morrer de vida”. Sabe como o conheci? Meu falecido gato, Dionísio, em um de seus passeios pelas estantes do escritório do meu pai, deixou cair um livro pequeno, em que Morin interpreta o fragmento pelo viés da biologia e da complexidade. Acho que a morte, como mistério, abre um leque de reflexões que nos ajudam a entender e dar sentido à vida.